E lá estavam ele e seu neto, sentados em poltronas de couro usando apenas a lareira como fonte de iluminação. Perto da cadeira, seu neto era um pequeno alfinete no meio de lanças. César tinha um cachimbo pendurado pela boca, e resmungava algumas das suas velhas histórias para seu neto. Como fez com seus filhos, César treinava a mente de seu neto indiretamente, para que tomasse o rumo desejado. Ele sabia que existia uma chance de seu neto se revoltar contra ele, como aconteceu com seu filho mais novo, pai deste neto.
César era pai de três filhos homens e duas filhas mulheres. Um dos filhos homens não tinha filhos, e uma das filhas mulheres não tinha filhos também. César sabia que o herdeiro deveria ser alguém fiel, inteligente – todos eram, muito provavelmente mais do que ele mesmo -, e com varios filhos, para serem herdeiros também. Ele já vivia há 132 anos de idade, e parecia ter metade disso. César nunca denunciava seu segredo para tal saúde. César puxou o antigo tabuleiro de xadrez de seu pai, e as respectivas peças, como costumava a fazer à essa hora com seu neto. Lembravam perfeitamente a situação do xadrez deixada na noite passada.
César tinha as peças pretas, como sempre preferiu, e seu neto adiantava-se com a vantagem do jogo. Mas César era imprevisível, quanto menos esperavam, tinha cartas na manga ou tudo era como tinha planejado, como Maquiavél. Mas não esperava por essa noite, uma noite que nem imaginava ser possível acontecer. Deixara pistas, mas achava que ninguém se importaria em cem anos – em duzentos ou trezendos anos talvez, mas em cem anos não. Ligara seu toca discos antigos – um dos únicos no mundo ainda intactos – e rodou seu disco favorito, não como sempre, pois ele sabia variar os discos ouvidos. Havia tempos, aliás, que não ouvia tal disco. A ultima vez foi contra a primeira tentativa de atentado à sua vida, obviamente mal sucedida.
César havia viajado pelo mundo todo, contava ao seu neto. Começara pela América do Sul, onde conquistara seus melhores amigos e súditos. Onde descobriu segredos inimaginados pela humanidade. Dizia que começara a estudar seus assuntos desde jovem. César sempre teve um enorme interesse por imperadores e suas conquistas, conhecia a maior parte deles como conhecia a si mesmo. Tinha como favorito Alexandre, Magno por suas ideologias de nações e povos unidos politicamente e culturalmente. Veja, Alexandre nunca teve como objetivo a monopolarização cultural como os antigos Supostos Estados Unidos da América do Norte, a vulga ‘globalização’. O que Alexandre queria era a aceitação de todas as culturas perante a cultura própria, e vice-versa. Alexandre queria a Mesopotâmia, a Babilônia, Macedônia, Grécia, e todas as outras regiões sendo uma só. Aproximando todas as suas culturas, demonstrando todas elas para todas elas, sem que houvesse perda cultural, possibilitando a mesclagem cultural.
César admirava Alexandre, Magno da Macedônia pois desejava o mesmo para o próprio mundo, contava para seu neto. Alexandre, além de mestre conquistador, foi um gênio militar, e com isso em mente, César estudou profundamente os conceitos deixados para trás pelos macedônios que serviram com Alexandre, e estudou os próprios conceitos de Alexandre, contava. Seu neto olhava ao tabuleiro sem piscar, ouvindo atentamente às histórias de seu sábio avô, escutando às melodias ácidas saindo do toca discos, e absorto no próximo movimento a ser feito, analisando todas as possibilidades e todas as oportunidades.
Finalmente havia feito mais um passo com seu bispo, e com isso voltou-se à seu mentor. César olhava, agora com sombria seriedade, para o tabuleiro, esperando e esperando. Neste momento, houve uma pausa momentânea na voz de César, tudo o que se ouvia na grande sala era o estalar das chamas da lareira, o riscar do toca discos e a melodia, dessa vez doce e calma, saindo do toca discos. César em um pulo,caminhou até um pesado caderno de couro com folhas amarelas e grossas, abrio-o, tirou de um de seus bolsos, com um movimento imperceptível, uma caneta tinteiro e escreveu algo na grossa página. Seu neto já tentara ler o que seu avô tanto escrevia naquele caderno mas era possivelmente em outra lingua, uma lingua perdida do seu tempo, e em outro alfabeto. César vinha voltando e Carlo abriu a boca para a primeira coisa a dizer na noite:
- Quando vou poder ler o que tá escrito naquele caderno, vovô?
- Provávelmente só lerão, se é que lerão, aquele caderno quando eu estiver mais do que morto. E imagine, isso não vai ser nem um pouco cedo. Aquele caderno é diferente de qualquer outro caderno que escrevi, e que todos conseguem um dia ler. Aquele caderno carrega um fardo maior do que simples informações. Aquele caderno é uma conversa, é um artefato tecnológico. Um dia existirá um computador tão genial, tão genial, que chegará perto de ser tão genial quanto esse caderno, mas nunca será tanto quanto.
O que de fato existe naquele caderno nunca saberíamos, já que a lingua usada em sua crista é uma lingua mais do que perdida, é uma lingua que só se foi identificada em um documento histórico, é uma lingua que nunca foi compreendida por inteiro. O alfabeto era a mistura de todos os símbolos, era o alfabeto divino, o aramaico, possibilitando a escrita em outra lingua. A tinta secava e Carlo se pôs de pé, e caminhou lentamente até as páginas abertas do pesado caderno de couro. Verificou se a tinta já havia secado, e estando seca começou a folhear o caderno. Mas algo estava errado, tanta coisa havia sido escrita, tanta coisa que não parecia nem poder caber em tal caderno. Era como se folheasse eternamente, como se folheasse e fosse sendo criadas mais e mais folhas no caderno.
Carlo se afastou daquela insanidade, e voltou à companhia de seu avô. Carlo era um garoto loiro de olhos azuis, como era seu bisavô, e como seu avô e seu pai, possuia uma postura imperial, era alto e magro. Sentou-se na grande poltrona e observou a posição das peças novamente. César ainda não havia feito seu movimento, e observava seu neto com curiosidade.
- O que foi, vovô? Por que tá me olhando assim?
- Nada, é só que você me lembra meu pai. Meu pai foi um grande homem, ensinou muita coisa pra mim.
Ao dizer isso, César pegou sua antiga carteira de couro preta, que usava havia cerca de cinco décadas, e tirara uma folha de papel plastificado e mostrou ao seu neto.
- Carlo, esta é uma nota de um dolar que meu pai me deu, e que meu avô deu ao meu pai. Eu planejava dar a algum filho meu, para dar a algum neto meu. Mas você é a pessoa que mais amo no mundo, no momento. Você não tem idade suficiente pra entender o que esta nota significa para nossa família e nosso sangue, mas quero que a guarde como se fosse parte de seu corpo.
A nota era muito surrada e possuia alguns números gravados em tinta azul. Carlo indagou a seu avô:
- Uma vez você me disse que eu não devia dar importância à coisas triviais como dinheiro.
- Isso não é dinheiro, pelo menos não mais. Sabe aquele quadro de Venezia que pertence a seu tio? Era de meu bisavô, seu tataravô, e foi passado de pai para filho até que chegou em minhas mãos e passei para meu filho que mais amava Venezia. Essa nota tem o mesmo, ou maior, valor sentimental que aquele quadro. Dê à esta nota a mesma importância que dá à la nostra Italia.
Ouvindo atenciosamente isso, Carlo pegou a nota, dobrou-a com cuidado e quardou-a em um pequeno compartimento que possuia em seu relógio. Ao terminar de tal movimento, César moveu uma peça rapidamente e voltou seu olhar para o luar. Era um dia frio, mas a lareira os esquentavam, além de iluminá-los.
As horas se passaram, e poucos movimentos foram feitos no tabuleiro, nenhum soldado morto, nenhum avanço se assistido por um amador. Nesse tempo, César explicara como chegara aonde estava no momento, contara a história de muitas pessoas que conhecera, e a história de muitas pessoas que não conhecera. Mostrara diários de seus ancestrais, mostrar retratos de seus ancestrais, seus próprios retratos. Fazia esse tipo de coisa toda noite, como todo avô apegado ao neto faz, mas a diferença era que César sabia exatamente o que Carlo já vira e o que não vira. Até que o interfone da mesa de César tocou, e toda a conversa pausou. César atendeu o interfone, e era seu filho, pai de Carlo, que falava do outro lado da linha.
César ordenou que subisse, saísse da chuva. Ao entrar, Antonio portava uma arma na mão, abrira a porta de uma vez e com estrondo. Gritou ao seu filho que se afastasse de César. O toca disco agora não reproduzia um som, já chegara ao fim do disco. O quarto alto, com uma escrivaninha grande, que parecia mais uma grande mesa de jantar para uma pessoa do que uma escrivaninha. A grande poltrona de aspecto imperial atrás da escrivaninha olhava para os integrantes do aposento com desprezo. César não parecia nada espantado, e via uma certa graça na situação, seu filho apontava uma arma, e ele caído ao chão com toda sua biblioteca à sua volta. O tapete vermelho e espesso confortava uma possível queda do corpo de César.
Antonia tinha a arma apontada ao peito de César. Disse:
- Desvendei seu enigma, agora seus anos de tirania acabarão, pai.
- Nunca acabarão, muitos te odiarão se realmente me matar. Se é que realmente desvendou meu enigma
- Dessa vez realmente foi desvendado, usei tudo o que Zeyer já tinha colhido para continuar a pesquisa. Descobri o que exatamente devo fazer pra conseguir te matar.
Neste momento Carlo soltou o primeiro som depois da entrada de seu pai:
- Não faz isso!
- Desculpa, filho, mas seu avô é uma pessoa má e precisa morrer antes que fique mais mal do que já, se isso é possível.
Carlo pulou na frente da arma e a socou para cima, e com um disparo, um grosso livro foi atingido no alto da sala. Antonio empurrou bruscamente seu filho para longe, e com uma batida de cabeça, Carlo desmaiara. Antonio voltou sua arma para o peito de César, e sem permitir mais nenhuma conversa, disparou três vezes. E com o impacto, o tabuleiro de xadrez havia derrubado uma peça. O rei preto.
O sangue derramado se camuflava no tapete grosso, mas os buracos feitos no corpo de César eram inevitáveis. César tossiu sangue, e Antonio se aproximou lentamente de seu pai caído. César disse:
- Realmente descobriu o enigma, meu filho.
- Sim, pai, e vou acabar com esse maldito império que forjou. Acabar com tudo, isso não foi a vontade de nossos ancestrais.
- Mas foi a minha vontade, filho! – com uma lágrima, César fixou seu olhar no fundo dos olhos de Antonio. – Quero que saiba, meu querido filho, que… – tosse, e um jorro de sangue manchou o rosto e terno de Antonio – …apesar de tudo, a coisa que mais me importava no mundo foi minha família. Você… era pra ser… meu herdeiro, era meu preferido.
- Cansei de suas preferências, pai. E você preferia a natureza do que a nós! – Neste momento Antonio chorava com força.
- Não é verdade isso…
- Vá para o inferno, pai!
Entre soluços sanguinolentos, César disse uma ultima sentença, após um momento de reflexão:
- Então… quero que saiba… que sempre… amei todos vocês.