Eu odeio a humanidade, odeio os humanos, odeio essa espécie orgulhosa por adquirir ‘inteligência’. Odeio o modo que destrói a natureza, o planeta, e a própria casa. Os filmes sempre mostram os alienígenas vindo à Terra e destruindo toda a humanidade. Às vezes eu acho que isso é de certa forma necessário. A humanidade tem que sumir de uma vez por todas, de alguma forma. Ou amadurecer. Não é acabando com o planeta inteiro que vamos evoluir, e sim aprendendo com a natureza.

A natureza não selecionou o humano aleatóriamente, foram os mais aptos a serem inteligentes, mas quando descobriram o segredo da natureza, que ela escolhe os melhores, começaram a burlar a seleção e com isso foder o plano todo da natureza de os transformar nos Ents do mundo. São poucos dos que se salvam, muitos poucos. Eu fico me imaginando sendo um dos ultimos humanos na terra. Eu faria de tudo pra que não surgisse uma civilização que possa resultar em mais um capítulo de destruição.

Outros filmes de ficção mostram os alienígenas que vão passando por planetas e explorando eles ao máximo como inimigos da humanidade. Eu digo que a humanidade é como esses alienígenas, só que a diferença é que ainda não sabemos, e espero que nunca saibamos, como viajar pra outros mundos com natureza rica.

São uma raça de filhos da puta orgulhosos que fazem de tudo pra terem tudo, inclusive destruindo tudo e todos. Se não cosneguem aprender nem a se lidar com a natureza, como vão aprender a se lidar consigo mesmos. Malditos sejam os naturalistas hipócritas que tentam salvar a natureza interfirindo ainda mais nela só para receberem uns elogios. E todas essas malditas cidades poluindo a beleza que a natureza é.

Tem aqueles que dizem que a natureza é cruel, que é egoísta, que é exatamente como o homem. Mas eu acho que a diferença é que a crueldade da natureza, o egoísmo da natureza é bela, é progressiva, não destruidora. A natureza tenta progredir atravéz da morte. O homem é burro, mata para aprender a matar melhor. Destrói para aprender a destruir melhor. A natureza mata para que vivam melhor, a natureza destrói para construir o melhor, a natureza é cruel para que os mais fortes sobrevivam, e a humanidade é cruel por diversão. Eu realmente espero que algo como em ‘O Dia em que a Terra Parou’ aconteça, mas ao invés do alienígena salvar a maldita da humanidade, acabasse com todos, destruisse tudo o que criamos.

Cá estava eu, e minha boa e velha janta, quando de repente começo a bolar uma teoria interessante, e só estou escrevendo-a aqui pra me lembrar dela depois. O caso é o seguinte, sorrir é curioso, não é? Por que devemos mostrar nossos dentes para expressar que sentimos confiança ou entretenimento para e com o próximo? Eu bolei uma teoria psico-evolutiva.

É o seguinte: Os cachorros mostram os dentes quando se sentem ameaçados, e isso para demonstrar que podem te enfrentar. Mas não são apenas os cachorros, os gatos também fazem, e os ratos, e a cobra, e praticamente todos os mamiferos que possuem dentes. Inclusive os macacos. Se temos algum parentesco com os primatas, como pode ser que eles utilizam o sorriso como defesa, ameaça, e nós como algo amistoso? Num grupo de macacos, quando há perigo, para avisar uns aos outros, eles sorriem, o que quer dizer que há um predador por perto e que devem ficar atentos e preparados para combaterem. Por que, quando sorrimos à um animal, ele consegue entender que estamos expressando amistosidade?

É o seguinte, dentes humanos são imprestáveis, comparados aos de animais selvagens, ou originalmente selvagens. Nossa mordida pode ser a mais poderosa de nossas armas, mas nossos dentes simplesmente não evoluiram para que servissem assim. Nossos dentes são inofensivos, assim, mostramos nossos dentes como ‘trégua’, instintivamente, mais precisamente como ’somos mais fracos que você’, e mais precisamente como ‘não queremos fazer mal à você’. Como usamos isso constantemente com os animais, o sorriso começou a ser usado entre os humanos como algo positivo. Eu nunca vi um cachorro achar uma coisa engraçada, dar risada, ou demonstrar qualquer tipo de sentimento positivo usando os dentes.

Por evolução, por conveniência, mostrar nossos dentes inofensivos garantiu o sorriso que damos à garota bonita da balada, ou quando ganhamos um presente, ou quando damos um presente, ou quando assistimos uma comédia besta. Mas se funciona assim para o sorriso, como será que funciona para o choro? É só uma teoria básica de um amador que não entende muito de psicologia, e que não garantia nenhum tipo de vantagem à nós, além de matar a curiosidade da origem do sorriso.

Por que Metallica é uma banda de rock mais influente que Iron Maiden ou AC/DC? Bom, isso prova-se primeiramente pelo público do Last.fm, que é bem variado. Metallica possui 103.581.639 execuções e 1.498.480 ouvintes; Iron Maiden possui 63.168.077 execuções e 987.936 ouvintes; AC/DC, 48.614.723 execuções e 1.292.831 ouvintes. Aí você analisa, mais gente ouve AC/DC que Iron Maiden, porque é uma banda que tem uma apelação para um público mais eclético, agora, Iron Maiden tem mais execuções porque seus fãs são mais fiéis.

Metallica ganha dos dois nos dois quesitos. E porque isso? Muita gente afirma que o Metallica traiu os fãs dos anos 80, fazendo albuns mais comerciais nos anos 90. Mas encaremos a verdade, quando os fãs dos anos 80 não gostaram dos novos discos, eles não deixaram de ouvir os antigos, e novos discos atrairam um novo público, por isso tem tanta gente que gosta de Metallica, e por isso Metallica é mais influente que AC/DC e Iron Maiden.

Você pega as duas bandas e analisa cada disco deles. Eles não mudaram seu estilo em nenhum disco, então, com seus 20 ou 30 discos, todos são muito parecidos, o que acaba sendo enjoativo. Metallica faz diferente, possui 15 discos, mas cada um com seu próprio material. Você acaba curtindo o Disco, e não a Banda. Particularmente, Ride the Lightning é o meu favorito, mas Master of Puppets é o mais aclamado. E além desses dois clássicos, o primeirão é o que agrada o público mais punk, Kill ‘Em All. …And Justice for All é o que apela para as músicas lentas. O Black Album, que na verdade intitula-se Metallica, é aquele que começa a cena mais popular do Metallica, menos thrash, mas ainda sim, com grande características do antigo Metallica.

Mas o Metallica conseguiu resgatar suas origens, apesar dos desvios dos albuns da década de 90, que pra mim são ótimos de qualquer maneira, no seu ultimo disco, Death Magnetic. E é por isso que Metallica vai reúnir os fãs novos, velhos e originais num grande estádio que é o Morumbi, e é por isso que já esgotaram os ingressos de quase todos os setores, no segundo dia de venda. Quem tem algum argumento que faça minha opinião mudar, que atire a primeira pedra. Eu vou ver Metallica, não fui nem no Iron Maiden, nem no AC/DC, apesar deste, eu ter me arrependido.

Ansioso

Metal will never die.

Um garoto desejou ter asas, e assim teve. Na sua sacada olhava para o mundo, esticando, acostumando-se e exercitando suas novas asas. A partir daquele dia, poderia ser selvagem, um verdadeiro espírito livre. Mas como sempre, qualquer homem teme o que é livre. Assim explica-se em Sem Destino. Sempre há alguém que não aceita o verdadeiro sujeito livre e o persegue até que acabe com sua liberdade, sem observar as consequências de retirar a liberdade de algo livre.

Seu pai entrou pela porta e viu seu filho, nu, com suas asas esticadas de forma a abraçar o mundo. Como seria com qualquer um, nada se diz na hora de extrema surpresa. É científicamente impossível explicar um ser humano com asas, e mesmo um ser humano tendo asas, é impossível ele voar. Mas o poder do desejo vai além de qualquer mera explicação humana para um fato indiscritível. O garoto ligeiramente virou seu rosto de forma a observar seu pai com apenas um olho, e disse ’sou livre, não preciso mais de você’.

Uma afirmação, uma dúzia de palavras, sempre tem um poder místico por trás. O significado daquelas palavras era maior do que o exprimido. Ao ser livre, você não depende de nada, além de si mesmo, e não depender de mais nada significa ser mais sábio e experiente que todo o resto. Um ser humano livre, realmente livre, não têm a necessidade de explicar o mundo, a verdade, ele simplesmente deseja conhece-lo, como é, sem ter um porquê.

Ao pular, o vento rasgou seu rosto, e o garoto sentiu o gosto da liberdade pela primeira vez, e é um gosto que eu e você nunca sentiremos. Sua forma de voar era diferente da forma de um pássaro voar. O passaro usa a densidade do ar quente para subir, o garoto simplesmente orientava-se para onde queria e assim ia. Aterrissando de prédio em prédio, observando uma mesma situação de milhares de diferentes ângulos. É isso que é ser livre.

Em algumas semanas, o garoto-pássaro virou notícia de capa, e desviou os olhares das verdadeiras manchetes dos dias, normalmente tragédias. E engatou curiosidade de todos, raiva de uns, e compaixão de outros. Mas sempre há os indiferentes, e esses têm o maior potêncial para igualar-se ao garoto-pássaro. Um dia ele aterrissou na varanda de uma garota que era uma desse grupo, dos indiferentes.

Ela foi até a varanda e falou com ele, ‘qual o seu nome?’. ‘Não sei, não tenho nome’, disse o garoto pássaro, e a garota perguntou ‘quantos anos você tem’, ‘creio que dezenove’, cogitou. ‘Não há necessidade de se aplicar uma idade para mim, sou infinito, espiritualmente e psicológicamente’. A garota contou-lhe o que acontecia lá embaixo enquanto ele era livre. ‘Garoto-pássaro? Não tenho nenhuma coisa em comum além das asas, com um pássaro. Eu devia ser chamado de Garoto Livre. A polícia quer me matar, e qual o motivo?’, ‘você pode cair e machucar alguém, é o que está se dizendo’.

Depois de um tempo que o garoto conversou com a garota, ele perguntou o que tinha de perguntar, ‘você não tem medo de mim?’. ‘Não temo o que desejo’, respondeu a garota.

Vampiros mudaram muito de características desde que foram idealizados. Se bem me lembro, vampiro só existiam o Conde Drácula e suas vítimas, e vampirismo não era uma doença, não era uma mudança genética, não era uma qualidade existencial, era uma maldição. Não havia explicações do tipo ‘quando o vampiro suga o sangue, ele joga um veneno no lugar para que sua vítima fosse transformada’. A explicação era simples: os vampiros mordem, e a maldição passa às suas vítimas.

Shadow of the Vampire

Max Schreck, o vampiro do filme Shadow of the Vampire.

Os vampiros dormiam de dia, dentro de caixões, isso porque eles são como morcegos, são animais noturnos, caçam de noite e dormem de dia. Eles não tinham reflexo, viravam morcego quando necessário, gostavam de sangue humano, mas mesmo assim se alimentavam de outras coisas. Nosferatu foi o grande filme original de vampiros, o que realmente causou medo, o objetivo dos vampiros. Vampiros não são pessoas boas e bonitas; são pessoas esquisitas, feias, que gostam de sangue e só saem de noite, eles causam medo, medo de verdade, não pânico, você não quer simplesmente fugir do vampiro, você o teme pela vida inteira, depois de encontrar um.

Vampires

Jan Valek, vampiro do filme Vampires, dirigido por John Carpenter.

Vampiros morrem com uma estaca no coração, ponto final.

Nosferatu

Isso é um vampiro. O Conde Drácula em Nosferatu.

Hoje em dia é tão idealizado, parece o romantismo literário. O vampiro idealizado, ele é um predador perfeito, ele é bonitão, bonzinho porque mata outros vampiros, nunca dorme, ele tem um veneno que contamina a vítima quando suga seu sangue, não se alimenta de mais nada além de sangue, só morre se queimar inteiro e dividido em pedacinhos, parece até um semblante da inquisição, e ele não sai na luz do dia porque brilha. Eu digo o seguinte, os vampiros de hoje são gays demais, eles gostam de chupar um sanguinho do pescocinho da menininha bonitinha.

Blade

Isso não é um vampiro, pra que um vampiro ia matar outros vampiros enquanto podia estar sugando o sangue de uma ninfa?

Não estou fazendo uma crítica apenas à série Crepúsculo, estou fazendo uma crítica a todos esses vampirinhos feitos pra agradar adolescentes necessitadas/dos. Com exceção de 30 Days of Night e alguns poucos outros perdidos por aí, eu odiei todos os ultimos filmes de vampiro feitos. São ou filmes de ação, ou filmes romanticos, porcarias mais trash que filmes trash de vampiro. Cadê o bom e velho Survivor Horror, visto na década de 80?

Interview with the Vampire

Perdoe-me Brad Pitt, apesar de ser um ótimo ator, isso não é um vampiro.

Vampiros gostam do sangue humano, e não do humano.

Twilight

Isso não é um vampiro, isso é um cara com sono.

Vampiros se transformam em morcego. Porque tiraram a característica mais legal de vampiros? E vai me dizer que algum desses três ultimos posers te deram um frio na espinha? Os primeiros três são muito mais medonhos, fala a verdade. Bom, esses vampiros falsos não estão presentes apenas nos filmes e nos livros, mas nos jogos também. Fora os zumbis de hoje em dia. Zumbis que correm… façam me o favor e inventem monstros novos, só não alterem as características dos monstros originais. Daqui a pouco surge um Frankenstein que tem aparência agradável, é inteligente e vai pegar gostosas. Por favor pessoas não nerds, parem de foder com a cultura nerd.

O latim é a origem de muitas das nossas linguas. O português se originou do latim. O substantivo bela é o feminino de belo, que significa o caráter de algo belo, beleza. O adjetivo bela é o feminino de belo, que é sinônimo de bonito, aquilo que é agradável à visão.

A palavra bela descende da palavra bella do italiano, que tem praticamente o mesmo significado, que é bonito. Por sua vez, bella do italiano descende da palavra bella do latim. Ironicamente, bella não é bonito em latim. Bella do latim tem dois significados, completamente opostos. O primeiro é o adjetivo, bella é feminino de bellus, que é bonito. O segundo é o mais curioso, e de certa forma, irônico: bella é o plural ou o abrangente de bellum, que significa GUERRA.

Exato, bella, em latim pode significar tanto como bonita quanto guerra. O que me faz filosofar, a guerra era considerada por muitos, ocidentais ou orientais, uma arte antes de ser uma política. Por isso a guerra era bella, e bella era guerra. A guerra é bela. Quando der o nome de sua filha como Bella, pense bem antes, qual o sentido que você quer para o nome, bonito ou guerra?

M1A1

Tanque M1A1

A guerra não é um mau, nem um bem, a guerra é apenas agradável a uns, e desagradável para todos os outros. Eu não vou ser hipócrita de dizer que acho a guerra uma coisa ruim porque destrói com as vidas de pessoas inocentes. Eu sou um apreciador da guerra, eu vejo beleza nela, o horror é belo. Por isso eu admiro os Estados Unidos da América do Norte, eles tem um grande potêncial bélico, mas os verdadeiros guerreiros são os brasileiros, que sabem o que é o horror da guerra. Eles vêem tudo de perto, não a gente. Roma era incrível, seus exércitos regiam a guerra com tal disciplina que a república dominou 48% da área da Europa.

Vão me odiar por achar a Bella bela.

Rick Wakeman tem 60 anos. Desses anos todos, 39 foram dedicados à música. E que música, posso dizer que Rick Wakeman é o melhor tecladista que já ouvi, perdoe-me Keith Emerson, mas ele é. Não apenas por sua técnica e sua delicadeza para tocar o mais acelerado solo de teclados de uma música, mas por suas composições épicas. Épicas, apesar de curtas, pois Rick Wakeman tem a incrível habilidade mágica de colocar horas em minutos. E isso é facilmente notado na minha obra favorita de sua autoria, The Six Wives of Henry VIII (As Seis Esposas de Henrique VIII). Disco lançado em ‘73, antes de sua sinfonia mais conhecida, The Journey to the Centre of the Earth (Jornada ao Centro da Terra), que lançou e foi tocado ao vivo aqui no Brasil, com orquestra, em ‘74.

Rick Wakeman

Rick Wakeman e seu arsenal

A delinquência da peça The Six Wives of Henry VIII é inegável, mas a delicadeza, a erudita e a paixão são igualmente notáveis. Seus teclados e pianos são eletrodos que produzem descargas harmônicas que te queimam por dentro, até a mais raivosa música emociona de forma inconsequente. É o progressivo na sua mais pura forma. É como uma trip de LSD, mas que funciona apenas com ondas sonoras, sem que veja nada, as tem apenas em sua mente. Ouvindo, não consegue-se organizar um único pensamento, a mente trabalha acaba funcionando da mesma forma incoerente que a música rege. E quando menos se espera, acabou-se. Parece ter passado horas enquanto ouve-se a música, mas a realidade é que passou-se menos de dez minutos.

A primeira esposa é apenas uma introdução, de certa forma romântica. As esposas seguintes formam histórias com a melodia de cada uma, consegue-se apenas imaginar as situações, as personalidades, os lugares. O que se destaca na peça é o instrumental, se há canto, não há composição poética, o canto acaba sendo usado como mais um instrumento musical, como se fosse necessário existir algum timbre diferenciado. Os sons sintetizados que RW usa são incríveis, tem qualidade única e são típicos em suas obras. É marca registrada de RW utilizar o solo ácido, sobrecarregado de notas e compassado frenético.

Peça imperdível, que recentemente ganhou uma versão ao vivo em DVD, o qual possuo, realizada no palácio onde Henrique VIII governou, o Hampton Court Palace. Rick Wakeman requisitou, que sua peça sobre as esposas de Henrique VIII, pudesse ser realizada neste palácio, isso há 37 anos. Música de qualidade, aconselho também outra peça de sua autoria: Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table (Mitos e Lendas do Rei Artur e dos Cavaleiros da Tábula Redonda).

O Brasil é um país desvalorizado pelos seus habitantes, digo, alguns de seus habitantes. Estamos no país com mais variabilidade genética no mundo, onde se encontra a Europa, a Ásia, a África e a própria América, tudo ao mesmo tempo, em uma árvore genealógica. O que possibilitou essa grande quantidade de povos se misturarem foi a mágica natural que o país exala. Foi as oportunidades inexistentes, o calor, o verde, azul e cinza brasileiro que fez com que tanta gente quisesse vir pra cá. E toda essa gente se misturou, convivem tão bem uma com a outra, comparando-se com outros lugares, é claro, que possibilitou-se uma cultura nova, uma mescla, não aquela que vemos com a globalização, uma que surge na mistura.

Brasil

Brasil, mostra tua cara.

A globalização é um mal para qualquer cultura. Não consigo pensar em um McDonnald’s brasileiro. Todos os McDonnald’s são americanos, não há mescla cultural, todos vendem a mesma porcaria. Agora, a cultura nacional é uma globalização interna, uma coisa única. A cultura do negro africano, com a do índio americano, com o cristianismo europeu misturou-se de tal forma que se vê deuses de mitologias africanas, indígenas e cristã em uma só crença. A música mistura o canto e a percussão africano com a temática realista do europeu. A dança move-se com as cores, e não apenas com o ritmo. As preocupações e filosofias do homem brasileiro, seja urbano ou interiorano, envolvem o real com o místico, as chuvas e secas do nordeste brasileiro são uma preocupação que envolve o homem e Deus como um só. O sul, o norte, o centro, é tudo lindo e único.

Numa distância pequena pode-se ver diversas culturas completamente diferentes. O Brasil é um país de caras e cores. Amo-o como lugar, mesmo com qualquer dificuldade política. A pobreza faz parte da nossa cultura, a irresponsabilidade do brasileiro deve existir sempre, porque se um brasileiro é responsável demais, ele não é brasileiro de verdade. O que deve-se preocupar com o Brasil é fazer como que não se esqueça da cultura e do interesse que temos pela realidade cruel em que vivemos e buscamos. É natural do brasileiro sofrer, nos adaptamos com isso, e possivelmente não conseguimos de largar isso. Os insatisfeitos que vão embora, eu amo meu país com todo seus problemas e suas felicidades desnecessárias, suas culturas filosóficas e suas culturas maltrapilhas.

O Brasil é um país de oportunidades, de sentimentos. Se queres ser feliz, esse não é o lugar, se queres ser humano, não há lugar melhor. O real, o místico, o falso, o inexistente, o que queres encontra-se aqui, basta procurar com a mente aberta. Não vou embora antes de conhecer o bastante de meu país.

E lá estavam ele e seu neto, sentados em poltronas de couro usando apenas a lareira como fonte de iluminação. Perto da cadeira, seu neto era um pequeno alfinete no meio de lanças. César tinha um cachimbo pendurado pela boca, e resmungava algumas das suas velhas histórias para seu neto. Como fez com seus filhos, César treinava a mente de seu neto indiretamente, para que tomasse o rumo desejado. Ele sabia que existia uma chance de seu neto se revoltar contra ele, como aconteceu com seu filho mais novo, pai deste neto.

César era pai de três filhos homens e duas filhas mulheres. Um dos filhos homens não tinha filhos, e uma das filhas mulheres não tinha filhos também. César sabia que o herdeiro deveria ser alguém fiel, inteligente – todos eram, muito provavelmente mais do que ele mesmo -, e com varios filhos, para serem herdeiros também. Ele já vivia há 132 anos de idade, e parecia ter metade disso. César nunca denunciava seu segredo para tal saúde. César puxou o antigo tabuleiro de xadrez de seu pai, e as respectivas peças, como costumava a fazer à essa hora com seu neto. Lembravam perfeitamente a situação do xadrez deixada na noite passada.

César tinha as peças pretas, como sempre preferiu, e seu neto adiantava-se com a vantagem do jogo. Mas César era imprevisível, quanto menos esperavam, tinha cartas na manga ou tudo era como tinha planejado, como Maquiavél. Mas não esperava por essa noite, uma noite que nem imaginava ser possível acontecer. Deixara pistas, mas achava que ninguém se importaria em cem anos – em duzentos ou trezendos anos talvez, mas em cem anos não. Ligara seu toca discos antigos – um dos únicos no mundo ainda intactos – e rodou seu disco favorito, não como sempre, pois ele sabia variar os discos ouvidos. Havia tempos, aliás, que não ouvia tal disco. A ultima vez foi contra a primeira tentativa de atentado à sua vida, obviamente mal sucedida.

César havia viajado pelo mundo todo, contava ao seu neto. Começara pela América do Sul, onde conquistara seus melhores amigos e súditos. Onde descobriu segredos inimaginados pela humanidade. Dizia que começara a estudar seus assuntos desde jovem. César sempre teve um enorme interesse por imperadores e suas conquistas, conhecia a maior parte deles como conhecia a si mesmo. Tinha como favorito Alexandre, Magno por suas ideologias de nações e povos unidos politicamente e culturalmente. Veja, Alexandre nunca teve como objetivo a monopolarização cultural como os antigos Supostos Estados Unidos da América do Norte, a vulga ‘globalização’. O que Alexandre queria era a aceitação de todas as culturas perante a cultura própria, e vice-versa. Alexandre queria a Mesopotâmia, a Babilônia, Macedônia, Grécia, e todas as outras regiões sendo uma só. Aproximando todas as suas culturas, demonstrando todas elas para todas elas, sem que houvesse perda cultural, possibilitando a mesclagem cultural.

César admirava Alexandre, Magno da Macedônia pois desejava o mesmo para o próprio mundo, contava para seu neto. Alexandre, além de mestre conquistador, foi um gênio militar, e com isso em mente, César estudou profundamente os conceitos deixados para trás pelos macedônios que serviram com Alexandre, e estudou os próprios conceitos de Alexandre, contava. Seu neto olhava ao tabuleiro sem piscar, ouvindo atentamente às histórias de seu sábio avô, escutando às melodias ácidas saindo do toca discos, e absorto no próximo movimento a ser feito, analisando todas as possibilidades e todas as oportunidades.

Finalmente havia feito mais um passo com seu bispo, e com isso voltou-se à seu mentor. César olhava, agora com sombria seriedade, para o tabuleiro, esperando e esperando. Neste momento, houve uma pausa momentânea na voz de César, tudo o que se ouvia na grande sala era o estalar das chamas da lareira, o riscar do toca discos e a melodia, dessa vez doce e calma, saindo do toca discos. César em um pulo,caminhou até um pesado caderno de couro com folhas amarelas e grossas, abrio-o, tirou de um de seus bolsos, com um movimento imperceptível, uma caneta tinteiro e escreveu algo na grossa página. Seu neto já tentara ler o que seu avô tanto escrevia naquele caderno mas era possivelmente em outra lingua, uma lingua perdida do seu tempo, e em outro alfabeto. César vinha voltando e Carlo abriu a boca para a primeira coisa a dizer na noite:
- Quando vou poder ler o que tá escrito naquele caderno, vovô?
- Provávelmente só lerão, se é que lerão, aquele caderno quando eu estiver mais do que morto. E imagine, isso não vai ser nem um pouco cedo. Aquele caderno é diferente de qualquer outro caderno que escrevi, e que todos conseguem um dia ler. Aquele caderno carrega um fardo maior do que simples informações. Aquele caderno é uma conversa, é um artefato tecnológico. Um dia existirá um computador tão genial, tão genial, que chegará perto de ser tão genial quanto esse caderno, mas nunca será tanto quanto.

O que de fato existe naquele caderno nunca saberíamos, já que a lingua usada em sua crista é uma lingua mais do que perdida, é uma lingua que só se foi identificada em um documento histórico, é uma lingua que nunca foi compreendida por inteiro. O alfabeto era a mistura de todos os símbolos, era o alfabeto divino, o aramaico, possibilitando a escrita em outra lingua. A tinta secava e Carlo se pôs de pé, e caminhou lentamente até as páginas abertas do pesado caderno de couro. Verificou se a tinta já havia secado, e estando seca começou a folhear o caderno. Mas algo estava errado, tanta coisa havia sido escrita, tanta coisa que não parecia nem poder caber em tal caderno. Era como se folheasse eternamente, como se folheasse e fosse sendo criadas mais e mais folhas no caderno.

Carlo se afastou daquela insanidade, e voltou à companhia de seu avô. Carlo era um garoto loiro de olhos azuis, como era seu bisavô, e como seu avô e seu pai, possuia uma postura imperial, era alto e magro. Sentou-se na grande poltrona e observou a posição das peças novamente. César ainda não havia feito seu movimento, e observava seu neto com curiosidade.
- O que foi, vovô? Por que tá me olhando assim?
- Nada, é só que você me lembra meu pai. Meu pai foi um grande homem, ensinou muita coisa pra mim.
Ao dizer isso, César pegou sua antiga carteira de couro preta, que usava havia cerca de cinco décadas, e tirara uma folha de papel plastificado e mostrou ao seu neto.
- Carlo, esta é uma nota de um dolar que meu pai me deu, e que meu avô deu ao meu pai. Eu planejava dar a algum filho meu, para dar a algum neto meu. Mas você é a pessoa que mais amo no mundo, no momento. Você não tem idade suficiente pra entender o que esta nota significa para nossa família e nosso sangue, mas quero que a guarde como se fosse parte de seu corpo.

A nota era muito surrada e possuia alguns números gravados em tinta azul. Carlo indagou a seu avô:
- Uma vez você me disse que eu não devia dar importância à coisas triviais como dinheiro.
- Isso não é dinheiro, pelo menos não mais. Sabe aquele quadro de Venezia que pertence a seu tio? Era de meu bisavô, seu tataravô, e foi passado de pai para filho até que chegou em minhas mãos e passei para meu filho que mais amava Venezia. Essa nota tem o mesmo, ou maior, valor sentimental que aquele quadro. Dê à esta nota a mesma importância que dá à la nostra Italia.
Ouvindo atenciosamente isso, Carlo pegou a nota, dobrou-a com cuidado e quardou-a em um pequeno compartimento que possuia em seu relógio. Ao terminar de tal movimento, César moveu uma peça rapidamente e voltou seu olhar para o luar. Era um dia frio, mas a lareira os esquentavam, além de iluminá-los.

As horas se passaram, e poucos movimentos foram feitos no tabuleiro, nenhum soldado morto, nenhum avanço se assistido por um amador. Nesse tempo, César explicara como chegara aonde estava no momento, contara a história de muitas pessoas que conhecera, e a história de muitas pessoas que não conhecera. Mostrara diários de seus ancestrais, mostrar retratos de seus ancestrais, seus próprios retratos. Fazia esse tipo de coisa toda noite, como todo avô apegado ao neto faz, mas a diferença era que César sabia exatamente o que Carlo já vira e o que não vira. Até que o interfone da mesa de César tocou, e toda a conversa pausou. César atendeu o interfone, e era seu filho, pai de Carlo, que falava do outro lado da linha.

César ordenou que subisse, saísse da chuva. Ao entrar, Antonio portava uma arma na mão, abrira a porta de uma vez e com estrondo. Gritou ao seu filho que se afastasse de César. O toca disco agora não reproduzia um som, já chegara ao fim do disco. O quarto alto, com uma escrivaninha grande, que parecia mais uma grande mesa de jantar para uma pessoa do que uma escrivaninha. A grande poltrona de aspecto imperial atrás da escrivaninha olhava para os integrantes do aposento com desprezo. César não parecia nada espantado, e via uma certa graça na situação, seu filho apontava uma arma, e ele caído ao chão com toda sua biblioteca à sua volta. O tapete vermelho e espesso confortava uma possível queda do corpo de César.

Antonia tinha a arma apontada ao peito de César. Disse:
- Desvendei seu enigma, agora seus anos de tirania acabarão, pai.
- Nunca acabarão, muitos te odiarão se realmente me matar. Se é que realmente desvendou meu enigma
- Dessa vez realmente foi desvendado, usei tudo o que Zeyer já tinha colhido para continuar a pesquisa. Descobri o que exatamente devo fazer pra conseguir te matar.
Neste momento Carlo soltou o primeiro som depois da entrada de seu pai:
- Não faz isso!
- Desculpa, filho, mas seu avô é uma pessoa má e precisa morrer antes que fique mais mal do que já, se isso é possível.
Carlo pulou na frente da arma e a socou para cima, e com um disparo, um grosso livro foi atingido no alto da sala. Antonio empurrou bruscamente seu filho para longe, e com uma batida de cabeça, Carlo desmaiara. Antonio voltou sua arma para o peito de César, e sem permitir mais nenhuma conversa, disparou três vezes. E com o impacto, o tabuleiro de xadrez havia derrubado uma peça. O rei preto.

O sangue derramado se camuflava no tapete grosso, mas os buracos feitos no corpo de César eram inevitáveis. César tossiu sangue, e Antonio se aproximou lentamente de seu pai caído. César disse:
- Realmente descobriu o enigma, meu filho.
- Sim, pai, e vou acabar com esse maldito império que forjou. Acabar com tudo, isso não foi a vontade de nossos ancestrais.
- Mas foi a minha vontade, filho! – com uma lágrima, César fixou seu olhar no fundo dos olhos de Antonio. – Quero que saiba, meu querido filho, que… – tosse, e um jorro de sangue manchou o rosto e terno de Antonio – …apesar de tudo, a coisa que mais me importava no mundo foi minha família. Você… era pra ser… meu herdeiro, era meu preferido.
- Cansei de suas preferências, pai. E você preferia a natureza do que a nós! – Neste momento Antonio chorava com força.
- Não é verdade isso…
- Vá para o inferno, pai!

Entre soluços sanguinolentos, César disse uma ultima sentença, após um momento de reflexão:
- Então… quero que saiba… que sempre… amei todos vocês.

Tenho constantes pesadelos em que o protagonista é um apartamento no qual morei alguns anos. Eu e meu pai e minha irmã procurávamos um apartamento para nós, já que minha mãe havia falecido recentemente e tinhamos que cortar certas despesas. Decidimos por um pequeno com dois quartos, em um pequeno prédio que encontrava-se numa rua quieta e sózinha. Assim que seguiamos o caminho de carro até a rua, presenciávamos a vida das pessoas sem nem saber quem eram elas. Um flash de mistérios, cada um desses que passava tinha uma história, mas poucos tinham uma história similar à que eu vou ditar.

Entrando na rua, árvores altas e antigas formavam um teto verde que chorava o orvalho da chuva passada. Paramos em frente ao condomínio. Era um pequeno prédio com uma dezena de andares, sem muita coisa a apresentar. Encontramo-nos com o agente da imobiliária que nos mostraria o apartamento a ser comprado. Subimos alguns degrais e nos vimos num pequeno pátio com um chão de piso claro mas sujo. Era um condomínio aconchegante, apesar de não apresentar as salas extras que condomínios modernos costumam a apresentar, como salão de jogos ou acadêmia. Todos estávamos muito abalados com a ida de nossa madre superiora, logo não dávamos muito valor a esse aspecto.

Havia escadas de incêndio ao lado do elevador; subir por alí era como subir escadas em Mordor, era tudo escuro e mofado. Ao chegar o elevador, capengando com sua velhice, mas de certa forma charmosa, presenciamos um cubículo miúdo para no máximo três pessoas normais e uma bem magra. Eu, sendo o meio termo de idade entre todos fui o que deveria subir três andares pelo caminho sombrio das escadas. O cheiro aconchegante do mofo, daqueles que sentimos no estacionamento escuro de prédios maiores, me relaxou, e por um momento esqueci sobre o recente ocorrido com minha mãe.

De alguma forma, aquela serenidade era sobrenatural. Havia cores invisíveis e sons inaudíveis à minha volta. Era uma alucinação abstrata, eu a estava tendo, mas não via nada de extra. Foi uma experiência sem volta, aquela foi a única vez que senti algo assim. Foi belo, e ao mesmo tempo diabólico, assustador. Naquela escuridão, que tinha luz o bastante para notar onde começavam e acabavam os lances de degraus, virei com intuição ao lado pelo qual eu deveria sair e a sensação acabou como começou.

O corredor no qual ingressei vi três silhuetas e recuperei consciência da situação em que me encontrava. Segui o caminho ao lado deles, num corredor em L. Logo na esquina do corredor encontrava-se a porta com os números de cobre em cascata: 104. As janelas da cozinha davam para o corredor. Ao se aprofundar mais no desconhecido apartamento, identificamos a sala de estar, que era média, quatro terços de um quarto de solteiro. Isso era à frente da cozinha; à esquerda da cozinha ficava a lavanderia, que tinha um pequeno banheiro de empregada acoplado, e um corredor que dava para um possível quarto de empregada, tão pequeno quanto costuma ser um quarto de empregada. Isso tudo tinha janelas que davam para o corredor do elevador. Fiz uma piada em silêncio para que o agente não pudesse ouvir, meu pai deu de ombros, mas minha irmã soltou um grunhido que era, provavelmente, uma risada tentando se soltar e me disse que não se importava com os vizinhos vendo suas calcinhas secando no varal da lavanderia.

A partir da sala à esquerda encontrava-se mais um corredor, que seguia até o banheiro e dois quartos – um de casal e um de solteiro. Eu e minha irmã dividiriamos o de casal, e meu pai o de solteiro, que era um quarto simples mas com espaço mais do que suficiente para abrigar meu pai. O quarto de casal era curioso, assim que entrei nele tudo pareceu mais pacífico do que nunca, me virei e não encontrei nada. Nada, não havia mais ninguém, apenas os móveis que colocaríamos um dia. Chamei por minha irmã e meu pai, mas não recebi resposta. O dia nublado que antes pousava no céu, deu lugar para um céu vermelho de noite poluída, e nada era visível a frente de um palmo da janela. O quarto estava escuro. Fui em direção ao corredor, e virei ao banheiro, chamei novamente mas nada, eu me encontrava sozinho, de repente.

O banheiro estava um caos total. Um cano brotava de uma parede destruída e gotejava um líquido de aspecto escroto. A louça da privada estava totalmente destruída, e onde ainda sobrava pedaços inteiros a louça tinha um aspecto de sujeira antiga. Havia uma mancha vermelha e comprida que ia de um buraco do teto até atrás da privada. A pia não diferia muito da privada, só que ao invés de uma torneira, havia um pedaço de ferrugem inteiramente retorcido. Gotejava dali, um líquido com o mesmo aspecto escroto do líquido que gotejava do cano. O box não era nada mais do que cacos espalhados pelo chão, cheios de mofo. O teto tinha uma aparência de líquen, quando não formava um buraco que dava para um negro eterno. Os azulejos do chão não eram mais identificáveis, era tudo uma mistura de sujeira, gordura e umidade. O odor era tal, que meu estômago se preparou para um looping, se eu não tivesse regressado ao corredor a tempo o chão teria algo mais a misturar.

No corredor, algo tinha acontecido, tudo parecia silencioso demais, os tacos do chão não estavam soltos, e as sombras pareciam conversar umas com as outras num silencio sobrenatural. Apenas por um momento pareceu que tudo era silencioso, e não ouvia-se nem o zumbido constante do cérebro trabalhando. E com isso e com a escuridão, veio um riscar. Um som rápido, intenso e vinha da cozinha. Repetiu-se diversas vezes. Voltei-me para o quarto novamente, e estava como estava, e o quarto de solteiro estava com a porta emperrada, pelo menos é o que parecia. Emperrada ou algo bloqueava a passagem. Comecei a andar em direção ao som, e ao sair do corredor e dar de cara com a sala de estar, uma sala irreconhecível, cheia de montanhas de carne, lixo, fungos e paredes encaridas, com uma camada gorda de suor escorrendo dos cantos. Me virei à direita e a cozinha estava completamente normal, apesar de nas janelas, com os vidros fechados, estarem mostrando uma luz intensa e vermelha. O risco começou a acelerar, tsk tsk tsk tsk tsk. Vinha agora da lavanderia, fui até lá, e tudo estava normal, mas a despensa, que era o antigo banheiro de empregada, tinha a porta fechada. E o risco vinha dalí de trás, me preparei para abrir.

A cena a seguir foi aterrorizante. Havia a silhueta de uma mão segurando um isqueiro, pendurada ao teto por uma corrente. Pingava dela alguma coisa. Toda vez que a mão riscava o isqueiro, um flash da situação queimava minha córnea. A mão não era simplesmente uma mão normal, ela era amarela e úmida. Eu estava congelado, aquela mão estava ali na minha frente se mexendo sem nenhuma forma de controle cerebral. Até que ela finalmente acendeu o isqueiro por completo, e a situação ficou mais estranha ainda. O que pingava da mão era água. E a mão era amarela e emborrachada. Era uma luva de lavar louças, e estava molhada. Mas agora a luva não se mexia mais, e funcionava como um candeeiro segurando a única fonte de luz direta.

Ouvi uma voz dizendo nada. De certa forma eu ouvi a voz, mas a voz não era pra ser ouvida, era como se alguém dissesse nada mas sua voz fosse ouvida. Me virei bruscamente e da janela que dava para o corredor do elevador vi a silhueta de varias pessoas paradas encostadas nos vidros. A luz vermelha acentuava suas linhas, e cada vez que diziam nada, os calafrios que eu estava sentindo intensificavam-se. Nessa hora compreendi porque todos os personagens de filmes de terror vão onde claramente há perigo. A curiosidade é maior que o senso de horror. Lentamente, cuidadosamente, me dirigi até a porta da cozinha, que dava para o corredor do elevador. As janelas infestadas de silhuetas humanas inalando o vidro duro e frio.

Cheguei até a porta e me preparei para abri-la com o cuidado de um sirurgião, preparado para um reflexo intenso caso identifique um perigo eminente. E com o frio da maçaneta, ouve uma batida forte na porta, como se alguém estivesse desesperado para entrar. Tropecei para trás e caído no chão notei as silhuetas se movimentando todas de forma descordenada de um lado para o outro. A pessoa desesperada atrás da porta balbuciava numa voz úmida para que não abrisse a porta. As vozes inexistentes se intensificaram e de uma voz fraquejada veio um grito alto, desesperado e feminino para que não abrisse a porta. Até uma batida final na porta.

Me notei caído no chão, havia pessoas me olhando através das janelas, sem mais luz vermelha ao fundo. Alguém batendo na porta dizia para abrir a porta. Me levantei e o calafrio que sentia antes já dissipava-se como o vapor de gelo seco. Olhei para trás e a sala estava normal, mobiliada do jeito que iriamos mobiliar quando comprássemos a casa. A pessoa à porta tinha uma voz masculina e de cor. Gritava para que abrisse a porta, mas os olhos na janela eram mais ameaçadores do que as sillhuetas que antes presensiavam-se em seus lugares. A porta tinha várias trancas, e apenas uma estava sendo usada. Como se eu tivesse recordado de algo, corri até a porta e fechei toda e qualquer tranca existente na porta, e indaguei um grito, como haviam me hipnotizado daquela forma.

Como hipnotizar? Termine o que tinha começado, abra essa porta, já! O grito bronqueou. Eu gritei que fossem embora, que queimem no inferno, já que é o que querem tanto, parem de jogar coisas na água do meu esgoto, filhos da puta. Chega de tônicos de hipnoze. Dessa vez tinham chegado muito perto de me conseguir. Apenas um deles tinha compaixão comigo, e ela dormia no meu sofa. Me virei pra observar ela, e me deparei com ela parada no arco da porta da cozinha olhando com mau humor para mim e para as janelas, e com um grito espantou seus irmãos. Disse-me que eu devo tomar mais cuidado, que beba apenas a água separada por ela, se não eu acabaria como meu pai e minha irmã.

Vi as correntes da porta todas jogadas no chão, e perguntei como conseguiam me hipnotizar de forma tão assombrosa. Era dia claro, ensolarado, mas as cortinas estavam todas bem fechadas, em favor à minha hóspede e guardiã. Me queriam, mas apenas ela me teria, pois sua beleza era incomparável. Quando a conheci, conheci seus irmãos também, todos ensaguentados, com facas na mão e vestindo aventais brancos. Entre eles lá estava ela olhando para mim, e o que eu senti foi quase o mesmo que ela sentiu. Ela correu até mim, puxou meu braço e me levou para longe de seus irmãos. Até hoje ela não me explicou muito bem o que são, se são bruxos, vampiros, psicopatas, não entendi até hoje o que os motiva a me caçar. Mas sei que ela encontrou motivação para me proteger deles.

Continua na proxima parte.